quinta-feira, abril 17, 2003



E os dias se tornam mais uma vez cinza na cidade e em meu estúpido cérebro, cinza por natureza. Pesado como chumbo em ombros fracos. Sou um escrevo, zumbi reparador de maquinas. Adestrado como um bom cão obediente. Apenas faço o que mandam, sem pestanejar ou qualquer tipo de indisciplina.Servil e calado. Como todo sistema opressor que se preza deve ser.

E todos os dias são exatamente iguais. Uma reprise na sessão da tarde. Posso andar de olhos fechados, sim eu posso. Pois tudo acaba do mesmo jeito que ontem. Eterno deja-vu.
Burro demais para me livrar dessas correntes, desse admirável mundo novo. Ser um estúpido clone um do outro é um padrão a ser seguido. Fraco demais, viciado em tv por assinatura e deprimido por ter que viver sem ela.

No colchão sonoro de cascatas de vidros quebrados, perco minha audição aos poucos. Limpo a testa de suor com minha mão suja. Posso ver os pequenos fragmentos de graxa entre as digitais. Um minúsculo grão entre as paredes enormes das digitais. Então, fecho meus olhos...Meu desejo era estar na escuridão uterina de um cinema refrigerado com sistema Dolby Stereo. Como me odeio por isso, “grande construtor de tudo que existe”. O filho querido da moderna industria cultural, consumidor compulsivo das ultimas novidades, o exemplo para todo o planeta de compradores. Eis a vergonhosa sina de deniac, com sua vida lowtech que nada vem a nos acrescentar.